"Por volta dos quarenta anos, percebi que eu estava em um momento muito escuro da minha vida. Qualquer coisa que fizesse, na “Selva” da realidade de , ano em que cheguei absurdamente despreparado para a exclusão da vida dos outros, que é a repetição da própria, havia uma sensação de escuridão. Não diria de náusea ou de angústia; para dizer a verdade, naquela escuridão, havia algo de terrivelmente luminoso: a luz da velha verdade, se quisermos, aquela diante da qual não há mais nada a dizer."
Por mais de uma década Pasolini escreveu e reescreveu sobre um sonho-viagem, dublê do outro, escrito por Dante – A Divina Comédia – sobre o inferno que coube a cada um deles. Enquanto Dante tem guia o poeta Virgílio, quem o caminho e as aflições de Pasolini – há uma expressão recorrente no livro, “aperto no coração” – é ele mesmo, duplicado na imagem de si próprio quando poeta na Itália dos anos 50 do século XX.
O texto é feito de anotações, de blocos fragmentados e datados, uma espécie de diário de viagem, seguido por um conjunto de fotografias – uma iconografia amarelada – que constitui junto ao texto um poema visual. A sugestão, ou o desejo do autor da divina mimesis, é que se leia o livro interceptado pelo álbum de fotografias que concentram, em capítulos sintéticos, a história da Itália, ou a história da Itália pasoliniana: o rápido evoluir da situação após a guerra, partigianos, levantes à mutação antropológica construída, ano a ano, pela sociedade do dinheiro e do consumo. Boa parte das fotografias são de poetas.
A diferença entre as duas viagens e seus protagonistas são substanciais: Dante era “sustentado por uma ideologia de ferro (...) produto final de toda a Idade Média” e com sua aventura literária alargou a língua italiana; o Pasolini poeta-guia, autor dos poemas escritos até os anos , sabia o que era a língua culta, e sabia o que era a vulgar. Já o poeta, na altura dos seus 40 anos, constata que a língua se uniformizou e “ambas são agora uma única língua: a língua do ódio”. A pergunta que dirige a seu guia é: continuar a expressar a vida numa língua essa, a língua do ódio? Que inferno é esse?
“O Inferno que pus na cabeça descrever já foi descrito simplesmente por Hitler. Foi através de sua política que a Irrealidade se mostrou de verdade em toda a sua luz. Foi dela que os burgueses extraíram o verdadeiro escândalo ou, me envergonha dizer, viveram a verdadeira contradição de suas vidas.” É essa “verdadeira contradição”, o novo inferno, que Pasolini espera, sem cinismo, descrever poeta neste livro e em suas últimas obras.
– Maria Betânia Amoroso
#Autor: Paolo Pasolini, Pier
#Páginas: 108
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2026