Marcado pela pandemia de covid-19 e a invasão russa à Ucrânia, o início da década de exacerbou as discussões sobre o valor da vida humana. Entre os extremos das correntes de solidariedade e da exibição de diferenças sociais, o mundo teve a chance de se olhar no espelho e perguntar: quais vidas importam? Foi a partir de questionamentos esse, potencializados pelo diário da tragédia durante o lockdown, que a psicanalista e crítica inglesa Jacqueline Rose lançou-se neste poderoso ensaio sobre a morte em nossos tempos. Para tanto, ela buscou respostas nas obras de intelectuais que se propuseram questões semelhantes em seu tempo: Albert Camus, Sigmund Freud e Simone Weil. A autora seu percurso pelo romance homônimo de Camus, em que a população de uma cidade da Argélia, então colônia francesa, se vê às voltas com uma epidemia devastadora. Novamente best-seller em razão dos danos causados pelo coronavírus, o livro de Camus desnuda o modo os homens lidam com o desastre: recorrendo à negação, ou defesa, parte intrínseca do mecanismo da mente. A fina trama do ensaio segue com o exame de escritos e cartas de Freud, que no fim dos anos recebera seu quinhão de desastres ao viver a Primeira Guerra Mundial e perder uma filha para a gripe espanhola — fato que, especula a autora, teria contribuído enormemente para que ele chegasse ao conceito de “pulsão de morte”, central na teoria psicanalítica. Já a filósofa política Simone Weil, às vésperas da Segunda Guerra, dedica-se a pensar a justiça e a violência, vendo, por exemplo, na sinistra idolatria que a Alemanha nazista nos anos , um espelho revelador da face da própria Europa — inclusive da França, com sua prepotência colonial. Qual a face do mundo atual? Rose chama a atenção para a desigualdade entre os mais atingidos nestes últimos tempos — despossuídos, mulheres trancadas em casa com homens violentos, negros vítimas da polícia — e os super-ricos, cada vez mais ricos à custa da exploração da mão de obra e dos recursos do planeta. Mas, ao mesmo tempo, enxerga na explicitação dessas diferenças uma semente que traz imensa oportunidade de transformação. Algo praticamente obrigatório se considerarmos a próxima peste a nos espreitar — a das mudanças climáticas.
#Autor: Rose, Jacqueline
#Páginas: 160
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2024