De pé no chão é um disco fundamental para a história da música brasileira, a certidão de nascimento do movimento que ficou conhecido pagode carioca. O samba, surgido no início do século XX com os bambas do Estácio, sofreu uma marcante transformação quando, em , Beth Carvalho trouxe do subúrbio um suingue diferente para embalar seu décimo primeiro álbum.
Em mais um volume da coleção O Livro do Disco, o jornalista, escritor e roteirista Leonardo Bruno narra das lendárias rodas de samba do Cacique de Ramos aos desafios das gravações em estúdio de uma obra que dividiu águas e rompeu barreiras. Pois De pé no chão, repleto de faixas antológicas “Vou festejar”, “Goiabada cascão” e “Agoniza, mas não morre”, vai muito além de ilustrar a trajetória de Beth Carvalho. Esta é também a história do pagode movimento cultural – que, segundo o pesquisador Nei Lopes, “tem o mesmo peso da revolução da bossa nova”.
Documento precioso para quem quer entender a segunda metade do “século do samba”, o LP De pé no chão abriu uma porta para a reinvenção do gênero – e foi dela que saíram Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Fundo de Quintal, Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto e muitos outros. Depois desse disco, nunca mais se batucou do mesmo jeito.
Trecho:
“Um detalhe sobre o Cacique de Ramos ajuda a ilustrar quanto a presença feminina era rara naquele ambiente. Quando Beth a frequentar as rodas, não havia banheiro para mulheres no terreiro — todos usavam o mesmo espaço, que ficava num cantinho do salão principal. Ela então insistiu para que fosse construído um toalete feminino. Bira Presidente acatou a sugestão, mandou erguer um novo reservado e quis dar ao local o nome de ‘banheiro Beth Carvalho’. A cantora ficou feliz com a novidade, mas preferiu recusar a ‘homenagem’.
Mesmo Beth Carvalho afirmando não ter sentido a pressão do ambiente machista, há de se celebrar o feito dessa mulher que não se cansou de quebrar barreiras ao longo de sua carreira. Conseguir entrar numa roda daquelas, exclusivamente por homens, se enturmar com eles e ainda estabelecer uma relação de confiança não era fácil. Ainda mais se considerarmos
que ela ocupava uma posição de liderança, por ser a artista consagrada, que poderia proporcionar a eles alguma visibilidade. Para se ter uma noção da solidão da mulher na indústria fonográfica e no meio do samba naquela época, o disco De pé no chão traz apenas homens entre os músicos e profissionais de estúdio: são mais de sessenta nomes masculinos registrados no encarte. Já as mulheres só têm vez no coro e na ambientação. Coincidência ou não, o disco seguinte da cantora — No pagode, de — é dedicado às pioneiras do samba,
numa exaltação à força feminina.”
#Autor: Leonardo Bruno
#Páginas: 152
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2022