Livro Cartas De Amor Ao Pesadelo

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Este é um livro trespassado por violência, a de um Dorian Gray despedaçando a tela do seu autoretrato, após a qual não sabemos “se ali ou terminou o pesadelo”. Regresso da tela de Judite a um poema de Mary Oliver que guardei nas minhas estantes, suspeitando, mais tarde, encontrar-lhe par e significado: “(…) mas apenas aqueles amantes que não escolheram de todo/e foram, tal, escolhidos/por algo invisível/e poderoso e incontrolável/e belo e até possivelmente/inadequado —/apenas esses sabem do que falo/nesta conversa sobre amor” (Felicidade. Mary Oliver, Flâneur, ). Belíssima maneira essa de ler o mundo que é a escrita, onde num poema se pode conter o infinito contraditório. Mas, se há uma diferença entre o mundo em que vivemos e o mundo em que queremos viver, ela não é meramente uma condição literária. Talvez não exista nada mais urgente do que, sugere Ken Loach (Diálogo sobre arte e política. Orfeu Negro, ), inventarmos uma nova linguagem inteiramente ocupada a ser isso mesmo — uma em que, “cegos escavando a superfície do amor”, na nossa condição humana, todos nos possamos encontrar, dizem os poemas de Judite. Um país de Alices “atirando crisálidas em poetas e contabilistas”, por oposição a um mundo onde “as grades andam a crescer mais do que as batatas/muito mais do que as batatas” — quem sabe as da Ana Luísa Amaral. Só essa linguagem pode abrir outras configurações de poder e da sua reprodução, inventar inéditos modelos de organização social e novos sujeitos políticos. E, quem sabe, até novas formas de amor.

Minês Castanheira

O título do novo livro de Judite Canha Fernandes retoma a frase da pintora Leonora Carrington (“This is a love letter to a nightmare”) e traz à tona a famosa lição dos surrealistas: “Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem — mais poder emotivo e realidade poética ela possuirá”. Neste caso, as palavras amor e pesadelo são aproximadas pela ponte de uma carta cujo conteúdo poderia bem ser o deste livro.

Amor e pesadelo tocam-se no despertar abrupto. Ambos acordam a parte humana, os espíritos animais que querem escapar de cada corpo. A ausência de censura do pesadelo, o seu realismo onírico por assim dizer, toma do amor a sua sombra. Longe da idealização, o amor é a parte sombria de cada um e, o pesadelo, ocorre raramente nos sonhos da vida. Nesta obra, também a censura habitual dos poemas de amor é abandonada, e as palavras se dirigem para um horizonte onde o véu do erotismo está ampliado. Se é em nossa época que tantos poemas sejam dirigidos aos homens contra o patriarcado, é bem mais i que poemas sem pudor lhes sejam dirigidos expressão de afeto, paixão e desejo. Nesse ponto, a poesia de Judite encontra ecos na de Lenore Kandel, poeta da geração beat que ainda não alcançou o devido reconhecimento.

Em versos livres e brancos, dotados de lirismo, os poemas são tecidos com entrega, fúria, contradição, revelando assim as ambiguidades de uma (ou seria de todas?) as relações. Essa honestidade, esse desnudamento, embora pudessem figurar em alguns meios fragilidade, são ao contrário a pura força do espírito, a sua virtude e singularidade. Ocupar esse lugar pode ser bastante ingrato, pode mesmo ser violento, mas talvez na obra haja algum tipo de proteção, de pertencimento que não é facilmente penetrado pelas carruagens do medo. Isso significa estar de olhos abertos durante o pesadelo.

Fico imensamente realizado em poder o nascimento deste livro, ver o seu desdobramento, a sua forma, o seu cheiro. É certamente um ponto de virada nas obras de Judite, e marca a sua presença enquanto uma escritora que recusa os rótulos facilmente atribuíveis de escritora política, escritora mulher ou demais definições que estreitam as paredes do espaço literário.

Ao explorar as imagens da intimidade, a obra pode ser também uma promessa para tempos em que intimidade e promessa se tornaram palavras distantes.

Augusto Meneghin

_outras informações

isbn: 978-65--484-3

idioma: português

encadernação: brochura

formato: 13x16,5 cm

páginas: 110 páginas

ano de edição:

edição: 1ª



#Autor: Fernandes, Judite Canha
#Páginas: 110
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2023

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