Pioneiro ao mover para o centro da literatura o operário, Roniwalter Jatobá traz em Crônicas da vida operária uma série de textos que reconstrói o universo dos trabalhadores fabris dos anos . Com sensibilidade e rigor textual, o autor explora o intenso fluxo migratório do período, quando milhares de pessoas foram empurradas de seus locais de origem para servir de mão de obra barata para o “milagre econômico brasileiro”.
A experiência de Jatobá operário da indústria automobilística e motorista de caminhão explica a vivacidade e a boa literatura que se produziu em suas obras, sem maniqueísmos ou personagens esquemáticos. Para Fernando Morais, no prefácio da obra, a conversa de Roniwalter é mais dura, já que se deu enquanto sua geração decifrava angústias existenciais. “Seus personagens, calados e magros, falam de uma gente que chega a São Paulo em pau de arara, viaja pingente nos trens de subúrbio e fabrica máquinas e edifícios de que jamais desfrutará”, escreve.
Quase quarenta anos depois de sua primeira publicação, Crônicas reafirma sua atemporalidade e similaridade com o mundo laboral contemporâneo, que trocou o precário chão de fábrica pelo trabalho mediado por aplicativo. Para Regina Dalcastagnè, que assina o texto de orelha, as mãos talentosas de Jatobá constroem representações cheias de vida e pouco presentes em nossa literatura e em nosso imaginário, “embora não passemos um minuto sequer sem o produto de seu trabalho”.
Trecho
“Você vai indo sentado de olhos parados e encostado ao vidro da janela do ônibus e vê a rua. Nada pra você é estranho: a rua, a fábrica que você vê todo dia, o mendigo encolhido trêmulo de frio coberto de jornal naquela esquina, o vento que sopra dos trilhos soprado pelas l que passam pegando velocidade, e você passa dentro do ônibus olhando a rua, quem sabe até me vê caminhando nessa hora da manhã no rumo da fábrica nesse primeiro dia de trabalho ou me vê já parado quieto aqui na frente esperando a hora, sete horas. Não lhe aceno nem você também, somos estranhos e desconhecidos.”
#Autor: Roniwalter Jatobá, Fernando Morais, Celso Frederico, Livia Viganó (Capista), Regina Dalcastagnè (Orelha), Rubem Mauro Machado, Renato Pompeu
#Páginas: 71
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2025