Com relação à psicanálise, a inversão é O discurso dominante se ocupa de traumatismos que não são sexuais, nem originários ou genéricos, que não têm nada de constitutivo, que são acidentes da história, ao mesmo tempo coletiva e individual. A esses traumatismos, que é preciso chamar de contingentes, ele acrescenta uma suposta vítima inocente, que cai sob o julgo do autómaton, com efeitos pós-traumáticos que o liberam de toda implicação subjetiva, e à qual somente devem ser dispensados cuidados e reparação.
Evidentemente, há aí algo a se julgar, e inclusive resolver quando o problema do tratamento se apresenta.
Vale ressaltar que a psicanálise, tal entendo a psicanálise lacaniana, está ali lutando, luta ética contra toda concepção psi que, em sua condescendência bem-intencionada, faz do sujeito uma marionete da sorte. Trata-se de saber, especialmente para os psicanalistas, se o trauma que está no cerne do inconsciente, segredo dos sintomas, é da mesma classe que os traumatismos que o discurso contemporâneo produz. Qual é a sua incidência nesses novos traumas?
A historicidade do tema do traumatismo, bem a da angústia, indica por si só em que medida ele se relaciona com a ordem do discurso que regula os laços sociais, também a subjetividade.
Colette Soler
#Autor: Colette Soler
#Páginas: 120
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2021