Moacir é um presidiário sentenciado a 30 anos de prisão por assassinato. Por bom acaba de ser transferido para uma cela com direito a uma pequena janela, por meio da qual pode enxergar uma fração de mundo. Nem isso ele deseja. Sua cela é o seu mundo. Ou poderia ser, caso não precisasse dividi-la com João, que prefere ser chamado de Joana.
Onde qualquer um enxergaria uma fresta de liberdade, Moacir só vê ameaças. A luz do dia e a presença de João/Joana rompem uma lógica duramente construída ao longo de sua formação homem. Curiosamente, Moacir é um leitor ávido. Mas, em vez de ampliar seus horizontes, os livros só servem para trancafiá-lo, cada vez mais, em um universo que reforça a única masculinidade que aprendeu a identificar sua.
os movimentos da mente de Moacir exige do leitor um exercício de difícil de ser realizado. Machista, racista, homofóbico, está longe de ser um assassino frio. Pelo contrário, é um homem tomado pelas próprias emoções, aprisionado em si.
Poucas vezes se viu um romance pinçar a jugular do machismo estrutural com tanta precisão. Desenhar o perfil de um dos tantos Moacir que encontramos nas manchetes dos jornais sensacionalistas não é tarefa para amadores. Exige um sofrido exercício de alteridade, um mergulho quase suicida na formação da própria masculinidade e um domínio seguro da linguagem.
Nada disso seria surpresa se estivéssemos falando de um romancista experiente, mas Antônio Mariano nos apresenta seu romance de estreia. Até então conhecido – e reconhecido – poeta paraibano, incursão pelo conto, resolveu, em Entrevamento, meter o pé na porta do mundo da prosa longa. E o fez com força e coragem.
Rosa Amanda Strausz
Escritora e editora
Outono
ISBN: 978-65-4-14-1
264 pág.
#Autor: Antônio Mariano
#Páginas: 264
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2021