Livro Invenção do fogo

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O impacto que a poesia de Ariane Alves provoca é tão forte

que obriga a incorrer em tudo aquilo que o crítico literário não

deve fazer. Ser pessoal, em detrimento da objetividade analítica.

Fazer paralelos (algo que pode ser redutor, dirigindo a leitura)

e estabelecer genealogias. Já usar a categoria “poesia escrita por

mulheres” ou “feminina”, isto seria demais. Vamos às genealo

-

gias: Cecilia Meirelles, inicial, do tempo em que foi simbolista,

menos clara, mais intensa (a meu ver, e desculpem-me os recita

-

dores de “sou poeta”). Dora Ferreira da Silva em passagens dis

-

cretamente sublimes. Hilda Hilst inicial, mas sem preciosismo

(em favor de Hilda: o preciosismo, nela, era um modo da iro

-

nia). A infortunada Orides Fontela. Para a salvação dos homens,

trechos seletos de Murilo Mendes.

No quesito “ser pessoal”, um depoimento: em algum ,

caminhava rumo à Biblioteca de Pinheiros, onde daria oficina

de criação literária; cruzei com Ariane, convidei-a, pedi que

mostrasse seus textos, imediatamente observei a qualidade.

Em ...! Desde então, criei um chavão: ao vê-la, exclamava:

“Publique...!!!”. Assim sabemos que faz muitos anos, vem pre

-

parando este livro. Refinando-o. Submetendo as palavras – em

especial, as imagens – a uma espécie de sublimação ou trans

-

mutação. O resultado, analogias inesperadas, com um sentido

agudo de síntese: “Teu corpo renasce em um coral.” “A morte

não é um pedaço de marfim”

Como ninguém, no horizonte imediato da criação poética

contemporânea, oferece os mais expressivos paradoxos: “A nudez

é um princípio de imortalidade.” Ou então: “Contava o tempo em

grãos de sal.” A poeta que se esconde – ou se escondia até esta

Invenção do fogo. Que transita em uma espécie de avesso, um

mundo ao mesmo tempo presente e oculto. Essa dualidade, a re

-

lação do evidente e do oculto, torna tão instigante a presente série

de poemas. Do choque, resultam passagens esta: “O oceano

é o sono do universo. / Entre as rochas ressoam duas asas”.

A crítica tem instrumentos analíticos; serve para transmitir

ideias, conceitos. Agora, transmitir a perplexidade, o espan

-

to? Através da citação de outro trecho? Como este: “Ansiedade por

sentir-se/ Real./ Pássaro que repousa no asfalto”. “Posso abrir a últi

-

ma porta?”, pergunta. Mas Ariane faz isso, abre portas, passagens

para outra dimensão; ou para esta, vislumbrada poeticamente.

Claudio Willer

#Autor: Ariane Alves, Germana Zanettini, Filipe Moreau
#Páginas: 58
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2021

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