Boa parte da literatura dedicada ao tema convencionou tratar o nazismo uma exceção histórica, um momento de trevas quase descolado de seu tempo. Nessa linha, são muitas as abordagens estritamente morais e psicologizantes que caracterizam o nazismo um fenômeno pré-moderno, resultante de um certo “mal absoluto” desconectado da contemporaneidade e da dinâmica capitalista.
Embora a barbárie tenha alcançado intensidade e escala inéditas sob o III Reich, isso, por si só, não configura o nazismo exceção, um ponto fora da curva e, logo, evento irrepetível. Em Livres para obedecer: a gestão, do nazismo aos nossos dias, o historiador francês Johann Chapoutot revela a conexão entre o nazismo e a teoria da gestão empresarial, caracterizando-o um movimento perfeitamente integrado à modernidade.
Chapoutot lembra que as origens do chamado management não estão no período nazista, mas tiveram nele continuidade e desenvolvimento. Mais do que isso, as ideias praticadas nos doze anos em que os nazistas governaram a Alemanha encontraram solo fértil no pós-guerra, particularmente na escola de negócios da República Federal da Alemanha, a Bad Harzburg Academy, responsável por formar mais de 600 mil executivos.
Para exemplificar esses laços, Chapoutot recorre à figura de Reinhard Höhn (). Jurista e influente intelectual do partido nazista que terminou a guerra general, Höhn, após alguns anos de ostracismo entre e o início dos anos , voltou à vida civil um dos fundadores e principal teórico de Bad Harzburg.
Os seminários e manuais de Höhn fizeram bastante sucesso até a década de . Sua tese se baseava no cumprimento de objetivos por delegação de responsabilidades, com metas hierarquicamente definidas, porém permitindo ao agente cumpri-las da forma que considerasse mais adequada. Nesse modelo que encoraja a iniciativa pessoal, a liberdade é entendida motor do desempenho individual – o autodesenvolvimento constante, a criatividade e o próprio bem-estar são atribuições do indivíduo; do mesmo modo, cabe somente a ele o peso do eventual fracasso.
Livres para obedecer aponta as assombrosas semelhanças entre as técnicas de administração nazistas e os métodos gerenciais modernos. Ainda que as teses de Bad Harzburg tenham sido alvo de críticas a partir dos anos e modelos de países Estados Unidos e Japão tenham assumido a dianteira na prática da “gestão de pessoas”, as questões que Chapoutot levanta são muito atuais, sobretudo neste tempo em que o fascismo ressurge com força.
“Explorar a vida e o universo de pessoas assim conduz a terras estranhas, distantes, impregnadas de angústia e brutalidade, a épocas superadas que chegaram a um fim absoluto, ao que se pensa, em . Mas esses textos suscitam reflexos de contemporaneidade, momentos em que, à leitura de uma palavra, de uma frase, o passado parece presente.”
#Autor: Chapoutot, Johann
#Páginas: 164
#Encadernação: Brochura Costurado
#Ano: 2023