A história da caatinga não pode ser contada a partir de um enfoque maniqueísta, que divida os protagonistas entre mocinhos e vilões. A brutalidade dos bandos de cangaceiros que assolavam os sertões do Nordeste só encontrava equivalência na truculência das forças policiais que lhes davam - e na profunda injustiça social dos latifúndios que lhes serviam de pano de fundo. Os papéis cambiantes de vítima e algoz, sofredor e assassino, confundem-se em um quadro de contornos pouco nítidos, necessariamente ambiguos. Em um cenário no qual se julgava que a honra ultrajada devesse ser lavada com sangue, em que a valentia era, por vezes, o único meio de sobrevivência, não havia espaço para distinguir bem e mal, certo e errado, crime e castigo. Aos olhos contemporáneos e urbanos, isso talvez cause perturbação e espanto. Mas, ao mergulharmos no turbilhão de significados dos dramas sertanejos, não faz sentido perguntar, por exemplo, se Lampião foi bandido ou herói, se Pad Cicero era santo ou impostor. O mesmo vale para a trajetória de Marca, a protagonista desta narrativa de Robério Santos. Deus e o Diabo andavam juntos - e de mãos dadas - na terra do sol.
#Autor: Santos, Roberio
#Páginas: 112
#Encadernação: Papel Cartão
#Ano: 2020