Como se fosse um espelho invertido de As primas, obra que consagrou Aurora Venturini, este romance mostra outra protagonista extraordinária: María Micaela Stradolini, vulgo Chela, é uma jovem superdotada, porém desprovida de qualquer senso de sociabilidade, que nos apresenta sua família, parte da alta burguesia argentina dos anos . Com um estilo verborrágico que revela tanto excesso de vocabulário quanto carência de autopercepção, Chela oferece um retrato involuntário e constrangedoramente fiel do ambiente que a circunda. Por trás dessa narrativa escandalosa está a mente brilhante de Venturini, cronista mordaz dos costumes de seu país e da natureza humana. A mãe de Chela é uma pianista cujo fracasso na arte desperta o zelo desmedido por uma coleção de bibelôs. O pai é tão rigoroso que a filha chega a urinar quando o encontra. A delicada irmã mais nova, Lulita, é a preferida dos progenitores, mas motivo de escárnio constante por parte da narradora. Diferente do irmão caçula, portador de deficiência e quase abortado por indicação médica, que conquistou o coração de Chela com sua fala: “Mmm... Mmm... Mmm...”. A essa galeria inusitada de personagens somam-se outros não menos curiosos: freiras e padres, mendigos tarados e membros de sociedades secretas, seres grotescos que dão um toque de realismo fantástico ao romance, sem dúvida uma via da autora para ironizar a tradição literária argentina. E não só: as artimanhas da criadora permitem que vejamos o que suas próprias criaturas desconhecem. Ao expor o pedantismo risível de Chela por meio de jogos de linguagem e trechos herméticos, Venturini eleva a voltagem cômica do romance e carnavaliza a intimidade que a alta sociedade argentina pensa ter com a Europa. Numa espécie de paródia, as viagens de Chela em busca de suas origens escancaram a mais clássica discrepância: a filiação nobre e a erudição estão imbricadas ao que há de mais sombrio no mundo — fascismo, racismo e classismo. O atrevimento de Venturini em mostrar o lado monstruoso do que se pretende cristalino torna este livro uma saga desconcertante e necessária, conferindo à autora o status de contemporânea a sua posteridade.
#Autor: Venturini, Aurora
#Páginas: 192
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2023