Os mesmos fatos. Que mudam, dependendo de são contados. Pode ser que façam uma história de amor. Do tipo amor total, desses que só se ouve falar. Pode ser que façam a história de um crime. No fim, uma questão de escolha. A narradora deste livro se vê debruçada sobre a vida de duas pessoas. Já mortas. São lembranças sem importância. Vestígios concretos de uma vida. Ilações a partir de quase nada. Ela arruma um apartamento para venda. Precisa jogar coisas fora. Precisa também resolver o que fará quando acabar a tarefa. Faz um jogo consigo mesma. Se conseguir entender a vida daquelas duas pessoas sendo uma história de amor, poderá fazer a mesma coisa com sua própria vida. Seu caso com Roger dura há décadas. Não estão juntos. Não estão separados. São sócios em uma galeria de arte. Conhecem-se desde a adolescência. A unir as duas histórias - a do casal já morto e a da narradora e Roger -, uma situação de adultério. Uma transa rápida, fugidia, sem demonstrações de afeto. Mas com consequências. A questão, no entanto, não são as consequências. Mas as causas. Ao reviver ou inventar o que aconteceu com Rose e Arno, a narradora procura entender o que aconteceu com ela própria. Há uma obra no apartamento ao lado. Um pedreiro que conheceu Arno e que pode saber mais do que diz. Há um quadro de Arno a ser encontrado. Há uma vizinha curiosa. Um remédio que está onde não deveria estar. E, principalmente, há o peso da Segunda Guerra, das migrações forçadas e das mortes, mais presentes ainda em quem conseguiu ficar vivo. E nos filhos dos filhos de quem enfrenta situações-limite, impossíveis de esquecer. Isso tudo em um apartamento caindo aos pedaços, em um Guarujá nem um pouco festivo. É agosto. Todos foram embora. Seus habitantes aparecem aqui, ali, em grupinhos pelas esquinas. A cidade está deserta. A ressaca o calçadão. E chove sem parar.
#Autor: Vigna, Elvira
#Páginas: 208
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2012