Livro O sexo do capitalismo: teorias feministas e a metamorfose...

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Às mulheres cabe o cuidado tanto dos indivíduos da humanidade. Suas ações são socialmente inferiorizadas e esquecidas na elaboração teórica, sendo que, no processo de sexualização da mulher, fica decidida a sua subordinação ao homem e está inscrita a sua marginalização social. O homem é pensado herói e ativo. Assim, a natureza tem de ser produtivamente submetida e dominada. O homem está a todo momento em concorrência com outros. […] Daí que, em uma formulação sensacionalista, também se pode falar do sexo masculino “o sexo do capitalismo”, tendo presente que a ideia dominante de “sexo” na modernidade é, de modo geral, uma versão dualista de “masculinidade” e “feminilidade”. Assim, o modelo de civilização da produção de mercadorias tem pressuposto a humilhação e a marginalização das mulheres, bem o simultâneo desprezo do social e da natureza. Esses momentos são empurrados para a esfera da reprodução, onde levam uma existência abstrata e tacanhamente privada.

— Roswitha Scholz



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A década de é um marco importante no balanço dos resultados da modernização capitalista. Na contramão das explicações dominantes, a crítica do valor alemã buscou o colapso soviético com categorias marxistas, indo, no entanto, além dos fundamentos do velho movimento operário, centralizando a crítica do fetichismo e lendo Marx desse ponto de vista. Roswitha Scholz é parte desse esforço, com a particularidade de observar essas questões sob as lentes da teoria feminista trazida desde maio de — por exemplo, ao relacionar capitalismo, repressão das mulheres, destruição da natureza e processos de colonização do chamado “Terceiro Mundo”. A autora então cunha a formulação “o valor é o homem”, conectando as elaborações da crítica do valor, a “dialética do esclarecimento” e a crítica da lógica da identidade de Adorno. Dessa primeira formulação, surge a crítica do valor-dissociação, que parte do princípio de que a constituição da forma mercadoria, enquanto forma fundamental do processo de valorização do capital, dissocia os momentos da reprodução social que não pertencem ao trabalho abstrato, à forma valor e à forma dinheiro, tornando-os estruturalmente inferiores, e histórica e socialmente imputados às mulheres. Assim, a dissociação do feminino aparece primeira condição para que o mundo da vida, cientificamente inapreensível, seja desprezado. E para que o sujeito supostamente neutro da modernidade seja, na verdade, homem, branco e ocidental.

Em O sexo do capitalismo, lançado agora no Brasil depois de mais de vinte anos, Roswitha Scholz estrutura e consolida sua impactante formulação. Ao situar a dissociação do feminino pressuposto do processo social, estabelece novos marcos de reflexão tanto para a questão da violência sexista que atravessa a história do capitalismo quanto para o significado abrangente do colapso do patriarcado moderno. Divergindo tanto das concepções pós-modernas de gênero quanto da perspectiva que formula um modelo de eixos que intersecciona desigualdades e diferenças, a autora argumenta que problematizar estruturas de dominação e apresentar momentos críticos do capitalismo circunstâncias induzidas externamente não resulta numa crítica categorial (e radical) desta forma de vida.

A teoria apresentada por Scholz nos permite que a dissociação da reprodução da vida condição necessária da lógica da produção de valor leva, no limite, a uma abstração total, evidente nos muitos aspectos da crise contemporânea. A irracionalidade da lógica abstrata do desenvolvimento que despreza o concreto sensível, a despeito da finitude da matéria, atua se o próximo passo pudesse ser a colonização de um outro mundo. A crise do trabalho que emerge das revoluções tecnológicas corresponde ao absurdo de nos tornarmos supérfluos e descartáveis. E a desestruturação dos padrões tradicionais de gênero não representa a superação da violência determinada pela hierarquia sexual rígida própria do patriarcado moderno; ao contrário, o que se observa é a brutalidade de sua crise que reconstitui a feminilidade matéria-prima, evocando os sacrifícios através dos quais esta forma social foi instituída. A obra que você tem em mãos consiste numa grande revolução teórica — uma contribuição crítica radical não apenas no que se refere à condição das mulheres, mas, sobretudo, a uma leitura da crise civilizacional da qual somos contemporâneos.

— Scheilla Nunes, na orelha

#Autor: Roswitha Scholz
#Páginas: 356
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2026

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