Na harmoniarpa, instrumento criado por Hector Papelard em , os teclados e cordas são impulsionados por uma tangente de cobre aparada com a pele,
criando peculiar sonoridade. Analogicamente, percebe-se o mesmo virtuosismo musical na pauta poética de Alexandre Pilati em Tangente do Cobre. Leitura epidérmica,
que remete à sensação sinfônica de um coral de vozes, regido pela força semântica de uma dicção que atravessa variações temáticas e desnuda um universo
criativo em que as referências estéticas, a transculturalidade, a memória e o diálogo com outros autores e obras realçam a dimensão intertextual desse conjunto
cuja matéria é o mundo fundado na palavra que o rege. Transitando entre o clássico e o contemporâneo, visitando o erudito, as vanguardas e o popular, a poesia
pilatiana não se condiciona a escolas, mas as transcende e se ressignifica em linguagem, identidade e singular pluralidade estilística. Imersa nos sentidos lírico, social,
psicológico e político da experiência existencial, essa narrativa se enuncia pelas metáforas, imagens, silêncios e no resgate de certas etimologias. Os signos evidentes
da perplexidade de um olhar sintonizado com as demandas desse tempo distópico e arrevesado realizam uma sofisticada tessitura de matiz conceitual, metafísica
e profundamente enraizada nos dilemas da contemporaneidade. Reverbera uma mística transgressiva que se flexiona numa poética de catarse e libertação. Se para
Rimbaud “há quem diga que é o cobre um clarim que urra”, eis aqui o ponto de viragem na escrita do autor: o verbo feito de metal fundente. Em tempos de tanto engodo, quando um escritor vale mais pelo contexto, e não pelo texto, é alvissareira uma poesia que se impõe pelo meticuloso repertório, arte de alta voltagem e impactante eficácia
Ronaldo Cagiano
Lisboa, inverno de
#Autor: Alexandre Pilati, Filipe Moreau, Marcelo Girard (Projeto gráfico)
#Páginas: 112
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2021