Todos juntos reúne a produção ficcional de Vilma Arêas, com a qual ela venceu dois prêmios Jabuti: do inédito Tigrão ao livro de estreia, Partidas, de . Entre um e outro, Um beijo por mês (), Vento sul (), Trouxa frouxa (), A terceira perna () e Aos trancos e relâmpagos (). A apresentação dos sete livros obedece a uma “cronologia invertida” — em e volta a . Esse percurso de quase cinquenta anos revela Arêas a prosadora arguta e sensível que já despontava em seus escritos iniciais. Revela também certa predileção sua pelas narrativas curtas, que tomam forma ora em episódio anedótico —, ora em pequenos “cromos” — descrições em que se identifica com nitidez o olhar de quem vê. À medida que a leitura avança, chega-se às primeiras ficções, e então à única narrativa longa que o (Aos trancos e relâmpagos) e à prosa experimental de Partidas. Do inédito Tigrão, destaca-se a narrativa homônima que conta a inesperada e circunstancial amizade de um militante de esquerda com um membro do Esquadrão da Morte numa prisão militar. Páginas adiante, porém, o leitor encontra o felliniano “Vestidos de palha”, confirmando que, neste nos outros livros, a situação política e a desigualdade social dividem espaço com momentos em que o humor toma a cena, conferindo leveza e gravidade a seus conjuntos de histórias. A prosa de Vilma Arêas é tão saborosa quanto inclassificável: vai do teatro à crônica, da descrição de aparente objetividade à narrativa de amor. Assume às vezes uma feição clariceana, outras vezes faz lembrar o riso cotidiano de Martins Pena, não por acaso dois autores a que ela dedicou anos de pesquisa professora de literatura. Se sua prosa afiada herda traços desses e de tantos outros autores que estuda, traduz ou de que gosta, ela não deixa de construir para si um estilo próprio de quem olha para o mundo sem naturalizá-lo. Os narradores atravessam a cidade com os olhos abertos e os ouvidos atentos à dicção do outro — parente, colega de universidade, pedinte, policial, taxista ou um homem que amou; todos são criados com a mesma dignidade. No amplo e democrático universo de personagens, anônimos e sumidades se esbarram e se deixam afetar pelo encontro, numa construção generosa da cena (e da vida) que vale a leitura de cada página e que desperta no leitor o desejo de perambular por aí até encontrar Vilma Arêas.
#Autor: Areas, Vilma
#Páginas: 560
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2023