Não se assuste o leitor se dissermos logo de início que “para a perfeita da nossa história, aqui devemos terminar nossa história”. É que para melhor se essas três imensas novelas de encontros inesperados e paradoxais, o melhor é ouvir os silêncios, os intervalos, as fissuras que sobrevivem ao término da performance. Embora marcadas pelas vanguardas históricas, estas novelas, escritas em , buscam uma outra experiência da temporalidade, se a destruição humana já tivesse se consumado e vivêssemos uma espécie de pós-vida, pós-histórica, que pelo fim. No entanto, ali onde termina, sobre as ruínas do mundo burguês e da insanidade da guerra continuada na paz capitalista — sempre à beira de uma nova catástrofe — a possibilidade de uma outra acoplagem de realidades, um universo super-real (mais surrealista que o “surreal”) que se produz pela montagem e desmontagem dos mundos. Como fruto vanguardista do encontro de um poeta chileno (Huidobro) e um multiartista franco-alemão (Arp), as micronarrativas aqui reunidas contam a história de quando as palavras eram capazes de surpreender todos os sentidos e embaralhá-los entre os pensamentos e os afetos. Retomam um plano mítico de quando “um grande relâmpago vindo das alturas se afastou crescendo o mais belo juramento de amor”. Nestas imensas, embora curtas, novelas, os crimes são de toda a humanidade e a solução do mistério depende da nossa capacidade de aprofundá-lo ainda mais. É o que fazem muitos Antônios anônimos que respondendo pelas dores do mundo se tornam (e nos tornam) os verdadeiros artistas. Do vazio de sentido à interconexão de todas as coisas, da repetição mecânica ao deslumbre, essas narrativas vão desenhando uma paisagem falante em que os tempos são intercambiáveis, as imagens são coisas e as coisas, palavras. Aqui, o delírio e a razão, a guerra e a paz, a história e a paródia, o natural e o tecnológico, o mesmo delicioso prato de novelas entrelaçadas. Ou melhor, aqui, “os estimados artistas e queridos colegas Huidobro Arp e Hans Vicente arrancaram as pedras de neve de seus olhos e as substituíram com estandartes de lírios e lótus que imediatamente fincaram raízes nessa boa terra vegetal e cresceram quatro antenas recebendo as ondas de valsas guerreiras das últimas batalhas”. Nessas trocas e substituições infinitas onde tudo pode ser outra coisa, as duas histórias de Huidobro que encerram o volume pintam dois países fantásticos com suas idiossincrasias e arbitrariedades. No entanto, eles se diferenciam, entre outras coisas, porque no primeiro “o presidente declarou de maneira retumbante: em Oratônia ninguém conspira senão eu”, enquanto no segundo, todos os habitantes foram se transformando em gângsteres, “acabaram-se assim os gângsteres em Peterúnia”. Em tempos de certezas polarizadas entre presidentes e gângsters é um alento beber na fonte do absurdo em um livro finamente traduzido e com um instigante posfácio. É que a retomada desse espanto nos alerta para a parte inaceitável da violência histórica cotidiana e, ao mesmo tempo, para a possibilidade de tocar o enigma constitutivo da nossa experiência e da invenção de outras realidades. Estas novelas são imensas pelo que nelas ressoa pelo avesso, pelas bordas, pelos intervalos entre os mundos que quando cai a cortina e, para salvar os nossos olhos, se abre a imaginação. Roberto Zular
#Autor: Huidobro, Vicente; Arp, Hans; Castelhano; Espanhol Henrique Bastos, Jorge
#Páginas: 108
#Encadernação: Brochura
#Ano: 2021